segunda-feira, 27 de agosto de 2007

SITES DE GRUPOS DE TEATRO E COMPANHIAS QUE UTILIZAM O TEATRO COMO A IMAGEM INDUTORA DE SUA INTERFACE.

O que caracteriza este grupo de sites é a utilização de elementos teatrais (abertura de cortinas, aplausos, spots lights, palcos, platéias, etc.) como interface na relação com o usuário. De diversas maneiras esta metáfora é utilizada na construção do sites: na animação de abertura, na passagem entre as páginas, como uma pequena janela de notícias atualizadas sobre as atividades do grupo, etc. A cortina da Boca de Cena é a imagem mais recorrente nos sites de teatro.Outra possibilidade do uso do teatro como interface é a exemplo da Companhia Ensaio Aberto que com sua home page coloca a nós usuários/navegadores, como integrantes de sua platéia:


A, exemplo, do que farei em cada um desses blocos de destaque, transcrevo textos, completos ou parciais, demonstrando a qualidade dos conteúdos disponibilizados em seus documentos digitais, acessível na íntegra, aos leitores conectados.


Uma pequena história da Companhia Ensaio Aberto[1]

Você acha que no mundo alguém imaginou um poema sobre o ato de catar feijãopara botar o feijão para cozinhar? Você vê que em geral o sujeito escreve, escreve sobre o Espírito Santo que desceu, escreve sobre o já poético. Eu tenho a impressão de que você deve fazer poesia procurando elevar o não-poético à categoria de poético. João Cabral de Melo Neto em busca de um teatro necessário. Em 1992 um grupo de profissionais dos diversos ofícios teatrais reuniu-se para conversar sobre o panorama do teatro no quadro geral da sociedade brasileira contemporânea. Tomou-se como ponto de partida consensual a existência de um vazio correspondente a um Teatro assumido, em sua vocação crítica e politizada, um Teatro que aceitasse ser uma arena de discussão da realidade, um Teatro onde o Mundo seria visto como prioridade, mais importante do que a própria cena. Reencontrar este caminho é resgatar para o palco uma função social, e para a platéia um público atualmente afastado, formado por pessoas que recusam uma visão simplista do Teatro.

Pontos de partida

Duas idéias passaram a constituir pedras angulares do Teatro em construção:

1) o estabelecimento de uma nova relação palco-platéia abandonando o ilusionismo e a identificação causadores da esterilidade de um espetáculo. Ao contrário, o que se busca não é mais representar a realidade ao vivo, mas a imagem de um pedaço da realidade retirado do fluxo contínuo da vida, gerando assim a reflexão.
2) estabelecido este novo padrão de relacionamento com o público, o Teatro pode alcançar sua função maior, ou seja, participar da verdadeira cidadania e do debate em torno das questões prementes e dilacerantes que atingem sociedades carentes de mudanças.o cemitério dos vivos: um paradigma.

O primeiro encontro da Companhia Ensaio Aberto com o público acontece em janeiro de 1993 com o espetáculo O Cemitério dos Vivos. O diretor Aderbal Freire Filho falou sobre o espetáculo: “O teatro que descobriu o caminho de volta da sala para a cidade pode inventar sua nova arquitetura ou atacar a cidade diretamente. Nestes casos, a mistura de drama e realidade tem um valor político irrecusável. Um espetáculo no próprio corpo da cidade precisa ser construído por quem sabe deste poder político. A qualidade fundamental de O Cemitério dos Vivos é esta consciência, que o diretor Luiz Fernando Lobo tem profundamente e que seus atores também demonstram ter. É por causa disso que eles fazem um espetáculo belo e eficiente, isto é, com um sentido que justifica o ataque a cidade. Indo aos limites da beleza teatral, como quando um ator chega, no teto do edifício, à beira do abismo, O Cemitério dos Vivos está indo ao limite da consciência que mantém o homem vivo”.

O caminho da consolidação: na contramão do circuito

No biênio 1993/94 implementado o projeto inicial com a trilogia O Cemitério dos Vivos, Pierrô Saiu à Francesa e A Missão, a Companhia Ensaio Aberto amadurecida pelos acertos e dificuldades, e acima de tudo pela experiência de fazer um teatro transformador de idéias em espetáculos, de possibilidade em realidade, entendeu ser o momento oportuno para um passo há muito projetado: a ocupação de um espaço por um período maior.

Por um teatro público

A Ensaio Aberto, desde a sua fundação, defende que os grupos e as companhias de teatro devem ser subsidiados pelo poder público. No triênio 1998, 1999 e 2000 a Companhia Ensaio Aberto ocupou um espaço público no coração do Rio: O Teatro Glauce Rocha. Apesar da companhia não ser subsidiada, esta ocupação possibilitou o desenvolvimento de um projeto de acesso aos espetáculos de um público carente, historicamente afastado dos teatros. Desde então o movimento social organizado, as universidades e escolas públicas passaram a andar sempre lado a lado com a Ensaio Aberto. Promovendo "um trabalho modelo de formação de platéia. Pintados, em sua maioria, com fortes tintas políticas, os espetáculos da Companhia Ensaio Aberto, do diretor Luiz Fernando Lobo, sempre atraíram a atenção dos líderes partidários de esquerda e integrantes do movimento dos Sem-Terra .

Uma companhia internacional

No ano de 2000, a convite de Helder Costa, diretor do Teatro A Barraca, de Lisboa, o espetáculo Companheiros faz uma temporada em Portugal. A Ensaio Aberto realiza uma co-produção com a Câmara Municipal de Lisboa e realiza a estréia internacional do espetáculo Morte e Vida Severina.
A temporada européia levou mais de duas mil pessoas a assistir ao espetáculo. Um decreto assinado pelo Governador Anthony Garotinho e pela Secretária de Cultura Helena Severo, torna a Companhia Ensaio Aberto grupo teatral subvencionado pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro.

2002: 10 anos de história

Para comemorar os 10 anos de história a Ensaio Aberto montou A Missa dos Quilombos.
"O gigantesco galpão em que Luiz Fernando Lobo e sua Companhia Ensaio Aberto preparam o espetáculo Missa dos Quilombos, lembra, e muito, aquele em que Ariane Mnouchkine trabalha com o seu Théâtre du Soleil na Cartucherie, arredores de Paris." Roberta Oliveira – O Globo. A companhia recebeu a indicação ao Prêmio Shell, na categoria especial, por “10 anos dedicados ao teatro social” e Luiz Fernando Lobo ganhou o prêmio Golfinho de Ouro, dado pelo Conselho de Cultura do Estado, pelo conjunto de sua obra.

[1] http://www.ensaioaberto.com/

SITES DE (ALGUNS) GRUPOS DE TEATRO E COMPANHIAS NACIONAIS

Nesta categoria – como uma experimentação arriscada - vou começar listando um conjunto de sites encontrados entre junho de 2004 - período de montagem do anteprojeto para a seleção ao Curso de doutorado do Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas da Ufba, e fevereiro de 2006 - período da apresentação do texto da tese para a banca de qualificação. Gostaria de chamar a atenção para o fato de que, se este texto estiver sendo lido no papel ou mesmo na tela de um PC desconectado, talvez estas próximas linhas, por páginas e páginas, pareçam sem sentido. Seu computador precisa ser um CC, isto é, computador conectado. O pleno sentido deste hipertexto realiza-se em suportes específicos para as linguagens hipermidiáticas.


http://www.siasanta.art.br/
http://www2.uol.com.br/parlapatoes/home/
http://www.grupotempo.com.br/grupotempo.html
http://www.satyros.com.br/principal.asp
http://www.truks.com.br
http://www.foradoserio.net/
http://www.republicacenica.com.br/
http://www.arteciencianopalco.com.br/
http://www.piafraus.com.br/
http://www.sobrevento.com.br/
http://www.circominimo.com.br/
http://www.circodelico.com/
http://www2.uol.com.br/teatroficina/
http://www.oscretinos.com.br/
http://www.companhiadofeijao.com.br/
http://www.fablud.hpg.ig.com.br/cultura_e_curiosidades/53/index_pri_1.html
http://www.fraternal-cia.com/
http://www.panaceiateatral.hpg.ig.com.br/
http://www.ciaartesaosdocorpo.com.br/
http://www.naudeicaros.com.br/
http://www.ciaparafernalia.cjb.net
http://uni-duni-te.vilabol.uol.com.br/
http://www.trupedalua.com.br/#home
http://geocities.yahoo.com.br/meninasatitude/
http://grupo.moitara.sites.uol.com.br
http://www.intrepidatrupe.hpg.ig.com.br/
http://www.doutoresdaalegria.org.br/
http://www.pequenogesto.com.br/
http://www.tanarua.com.br
http://www.ciateatroautonomo.com.br/
http://www.ciadeteatrocontemporaneo.com.br/
http://www.teatrodeanonimo.com.br/
http://www.riguetti.com.br/offsina/
http://www.ensaioaberto.com/
http://www.nosdomorro.com.br/home.html
http://geocities.yahoo.com.br/grupoestudarte/
http://www.grupogalpao.com.br/
http://www.theras.cjb.net/
http://www.giramundo.org/
http://www.carrocademamulengos.com/
http://www.satyros.com.br/principal.asp
http://www.sutilcompanhia.com.br
http://www.armazemciadeteatro.com.br/
http://www.sonhoemagia.com.br
http://www.depositodeteatro.com.br/
http://www.tca.com.br/theatrum/grupo.htm
http://www.teatrovilavelha.com.br/novo/index.htm
http://www.grupointercena.com.br/intercena.htm
http://www.dimenti.com.br
http://www.infonet.com.br/gimbuaca/
http://www.ciameianoite.rg3.net
http://www.teatrodeseraphim.ubbi.com.br/
http://www.clowns.com.br/
http://www.ciabarrica.com.br/
http://www.laminima.com.br/laminima/home/index.htm
http://www.andante.com.pt/
http://www.mundoaocontrario.com.br/
http://www.ciasaojorge.hpg.ig.com.br/
http://www.teatrodavertigem.com.br
http://www.tespis.com.br/
http://www.culturapara.art.br
http://www.engenhoteatral.com.br/


Nesta relação, apresento o endereço de 61 sites de Grupos e Companhias de Teatro do Brasil[1]. Com este número têm-se uma idéia da extensão das escrituras hipermidiáticas que disponibilizam, na internet, narrativas sobre o fazer teatral. Porém, se o leitor deste texto não puder estar conectado, creio ser necessário desterritorializar o conteúdo de alguns desses documentos, a título de exemplificação, de ponto de fuga.

Para tanto, criei pontos de leitura e compreensão para os conteúdos de alguns desses sites como uma espécie de exposição de suas produções de conhecimentos para a área teatral. Um dos aspectos que mais se destaca nos sites de grupos de teatro é a escolha da interface, isto é, a imagem de imersão do usuário. Outros pontos recorrentes ao interesse dos criadores de cena são os sites que disponibilizem documentos de processos de criação; que produzam material teórico sobre o fazer teatral; que apresentem o caráter interdisciplinar do teatro, isto é, que articulem o teatro com outras áreas do conhecimento humano; que ofereçam pequenas, mas preciosas idéias inovadoras; que desenvolvam trabalhos sociais através do teatro; que mantenham núcleos de documentação e memória do seu fazer teatral; que produzam metodologias e técnicas teatrais.


[1] Como um dos exercícios desta desterritorialização, destaco para o anexo desta tese, o conteúdo do último endereço desta coleta, não de uma forma aleatória, mas utilizando o critério de continuidade: é o site onde estão hospedadas as páginas das companhias teatrais de Belém do Pará, que estarão presentes no desdobramento desta minha pesquisa: a realização da Sala de Ensaio Online.


http://www.culturapara.art.br/teatro/anthares/index.htm
http://www.culturapara.art.br/teatro/atorescontemporaneos/index.htm
http://www.culturapara.art.br/teatro/madalenas/index.htm
http://www.culturapara.art.br/teatro/palha/index.htm
http://www.culturapara.art.br/teatro/inbust/index.htm
http://www.culturapara.art.br/teatro/nosoutros/index.htm
http://www.culturapara.art.br/teatro/palhacostrovadores/index.htm
http://www.culturapara.art.br/teatro/usinadeanimacao/index.htm
http://www.culturapara.art.br/teatro/cuira/index.htm

Este último endereço é do grupo Cuíra do Pará, objeto de minha investigação de mestrado.


SE VC TEM UM GRUPO OU SABE DE UM GRUPO E ESSE GRUPO TEM UM ENDEREÇO ELETRÔNICO QUE NÃO ESTÁ NESTA RELAÇÃO, FAÇA UM COMENTÁRIO QUE TEREI PRAZER EM ADCIONAR SUA SUGESTÃO.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

CARTOGRAFIA FABULOSA

Há um comentário, nas primeiras páginas deste blog, onde escrevo que cheguei a pensar que nem precisaria para cartografar este objeto, de categorias definidas a priori, isto é, externas as obras em questão. Poderia, explicitamente, ouvir as próprias obras, deixando que categorias emergissem de seu interior. Exatamente agora, ao iniciar esta cartografia – ao debruçar-me sobre os conteúdos dos sites; ao navegá-los, incessantemente - perceptos saltaram sobre mim, dando-me as possibilidades necessárias para a construção de novos afectos com esta cartografia. Decidi por uma fabulação muito particular, própria e partindo de um princípio único: que os sites pesquisados digam de si; de que deles mesmos apareça conteúdos textuais para esta escritura, categorias indutoras para a sua análise. Creio que é exatamente isso que vai acontecer. E isto é tão interessante quanto complexo.

No material encontrado na internet estão alguns sites que representam a produção do teatro como Net-cenas. Para melhor cartografar estas escrituras, organizei os sites de teatro em oito categorias:

· Site de Grupos de Teatro e Companhias Nacionais.
· Site de Centros de Estudos e Pesquisas
· Site de Entidades Representativas
· Site de Revistas Digitais Nacionais de divulgação do Teatro
· Site de Instituições Públicas da Política Cultural para o Teatro.
· Site de Escolas de Teatro e Universidades com cursos de Teatro ou Artes Cênicas.
· Site de Festivais de Teatro no Brasil.
· Outros Sites (subcategorias como blogs, fotologs, podcast, etc.).

Este forma de “organização” é apenas uma estratégia de abordagem dos objetos. Muitos dos sites aqui apresentados poderiam estar presentes em duas ou três dessas categorias, o que na verdade, os qualificam, ainda mais, como escrituras hipermidiáticas. Outro fato é que haveria outras categorias a serem identificadas, melhor ainda, inventadas numa cartografia desta natureza: sites de Teatros e Espaços Cênicos do Brasil, sites de Empresas especializadas na comercialização de materiais técnicos para a cena, etc. Tantas outras mais, poderão surgir no desdobramento e publicação desta pesquisa. Mas destaco que este é um aspecto muito interessante para a manutenção e atualização desta cartografia.

INSTAURANDO DIÁLOGOS CARTOGRÁFICOS COM A PRODUÇÃO HISTORIOGRÁFICA

Gustavo Fortes Said, em seu texto, A História Estruturada no Discurso da Pós-Modernidade[1], discuti sobre a mídia e a construção do acontecimento, mas precisamente, a intervenção da mídia na produção historiográfica. Segundo o autor, está aí, a possibilidade de uma Historia Imediata - que muito nos interessa, pois é exatamente isso que acredito que está em construção com os sites de teatro: uma História Imediata do Teatro Brasileiro. Esta abordagem historiográfica implica uma relação temporal, no aqui imediato, não inviabilizando o fazer histórico. “Em contrapartida, operam-se também mudanças de percepção da história, agora ligada de tal forma ao presente histórico ou histérico (...) pelo acúmulo de informações, provocando, contraditoriamente, efeitos de afirmação e de negação do passado pelo presente”, afirma Said.

Esse novo tipo de abordagem histórica – a história imediata – supõe segundo Jean Lacouture (1995), uma proximidade temporal da redação da obra e do autor da mesma, em relação ao tema tratado, o que é bem próprio da atividade jornalística, sobretudo se consideradas as matérias transmitidas ao vivo pelos modernos meios eletrônicos. (...) A história imediata resgata, portanto, a discussão sobre a relação intrínseca mantida pelas estruturas e os eventos, já tão discutida pela Escola dos Anais, mas agora demarcada diferentemente em razão das características - a fragmentação e segmentação das sociedades e o novo status discursivo da cultura contemporânea – do ambiente pós-moderno no qual se insere esta atividade de pesquisa histórica. Centrada no fato de que através da mídia se promove a construção do imaginário histórico e a legitimação dos acontecimentos e das ações empreendidas pelos agentes sociais, a abordagem da história imediata acaba por aproximar a atividade do historiador da prática jornalística. A construção da realidade histórica está, assim, ligada às condições conjunturais da produção e da multiplicação de inúmeros discursos sociais, que se anunciam através dos acontecimentos divulgados pela mídia, reproduzindo aquilo que Braudel havia chamado de dialética das durações – do evento à conjuntura, e desta à estrutura, ou, em sentido inverso, da estrutura aos eventos.

O autor chama atenção para as especificidades próprias do veículo em questão, seu contexto social, e a mim caberia, acrescentar as especificidades da linguagem teatral, principalmente quando a proposta poderia ser uma abordagem histórica imediata sobre processos de criação de artistas da cena. Com este foco a questão ficaria cada vez mais líquida, movente, em direção a um estado futuro, mais fluídico, desdobrando-se mais e mais em novas questões, o que não é o caso desta tese. Em resumo a história imediata é resultado da própria mediação que sofre. A história imediata do teatro brasileiro, construída através dos sites disponíveis - que poderia ser aqui, tranquilamente, proposto como desdobramento desta pesquisa - seria necessariamente uma história mediada pelo computador, via as redes telemáticas, do/no aqui e agora.


Uma história construída em função da emergência destes grupos e da relação que os mesmos estabelecem com os mídias, destitui o sentido homogêneo de um fluxo histórico determinado aprioristicamente pelas teorias da modernidade e o conduz abertamente através das inúmeras virtualidades do seu curso. (...) Estes centros ou espaços de produção histórica estão ligados à mídia tradicional (jornal impresso, rádio e televisão) e também aos novos veículos (Tv a cabo, Tv via satélite, rádios comunitárias, Internet etc) que ao longo das últimas décadas têm introduzido, no contexto da pós-modernidade, novas práticas de linguagem, novos ambientes culturais, novas relações de poder e uma nova concepção de história, agora baseada na horizontalidade social.

[1] * Gustavo Fortes Said é professor de Teorias da Comunicação do Departamento de
Comunicação Social da Universidade Federal do Piauí e mestrando em Comunicação e Cultura pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro.
http://www.intercom.org.br/papers/xxi-ci/gt23/GT2307.PDF

AGENCIAMENTOS COM OUTROS CARTÓGRAFOS III

PROPOSTA CONSTRUÍDA PELO PROF. DR. ANDRÉ PARENTE[1]:

Para este autor há dois caminhos de criação; duas estéticas. É necessário identificar o caminho escolhido pelo criador.

· a estética da opacidade: você cria uma imagem que vai valer como imagem e vai manter o espectador à distância, vai criar um processo de distanciamento em relação ao espectador.

· a estética da transparência: você cria uma imagem que vai trazer o espectador para dentro da imagem.

As análises das obras, como portadores de possíveis filiações a qualquer uma das estéticas, dão aquelas, o reconhecimento como obras de criação artística, muito embora, de dimensões estéticas diferenciadas, esclarece Parente:.

Nos dois casos, pouco importa se você escolhe uma via ou outra, a imagem vai atribuir um lugar para o espectador. Neste caso, o espectador não é mais apenas o espectador sujeito do conhecimento; sujeito que vê a imagem com os olhos do espírito da razão, que seria um sujeito, digamos, ainda da arte neoplatônica, mas já seria um sujeito carnal mesmo, um sujeito que olha com o olho do sensível. Uma obra - ou uma imagem - não é pré-determinada, acabada, em relação ao espectador, (...) há uma interação entre o espectador e a obra de tal forma que a obra e o espectador só vão existir a partir da relação que se estabelece. (http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-71822004000200002&script=sci_arttext&tlng=pt acessado em 18/01/06)

[1] André Parente é doutor em cinema pela Universidade de Paris VIII, onde estudou (82-87) sob a orientação de Gilles Deleuze. Em 1987 torna-se professor da UFRJ, onde funda o Núcleo de Tecnologia da Imagem (N-imagem).

AGENCIAMENTOS COM OUTROS CARTÓGRAFOS II

PROPOSTA CONSTRUÍDA PELO PROF. DR. VICENTE GOSCIOLA[1]:


A) – DA ANÁLISE DE ROTEIRO DE HIPERMÍDIA:


Segundo o autor Vicente Gosciola, o roteiro da hipermídia pode prever as seguintes características audiologovisuais das seqüências de telas, ou cenas:

· planificação: determina o tamanho e a localização na tela, das imagens, sons e textos;

· movimentação: definem o movimento da câmera e o movimento das imagens, sons e textos;

· transição: o link determina algumas maneiras de realizar a passagem de uma tela para outra.

O prof. Gosciola identifica o link por sua natureza, como um elemento vivamente presente na obra hipermidiática, idealizado na etapa de roteirização e determinado por três características:

· comportamento: tipos de links definidos por sua ação em relação ao conteúdo, pela forma como comunica a presença de outro conteúdo;

· estruturação: links que definem para o conteúdo em qual localização e em qual momento do seu desenvolvimento se faz a sua apresentação ao usuário;

· repetição: o quanto e como os links se repetem, constituindo um certo ritmo, construindo a unicidade, tornando a obra hipermidiática una.


B) – DOS ELEMENTOS DE ANÁLISE DA ROTEIRIZAÇÃO DE OBRAS MULTIMIDIÁTICAS:


Gosciola ressalta que não é levada em conta a interface (figura que não pertence ao foco central do objeto de estudo de seu livro) pela qual o link se apresenta. A interface da hipermídia já é um tema amplamente discutido em publicações especializadas. Em seu livro, Vicente, concebe que a interface é um dos componentes da hipermídia e assim é tratada ao se considerar o papel do link como um elemento de comunicação dessa hipermídia. Portanto, o autor considera que esses itens são estendidos e ampliados para determinar os seguintes elementos de análise das obras:

· Sobreposição: acesso para um novo conteúdo por sobreposição

a) Parcial: sobreposição a tela, a imagem, ao texto, ou ao som anterior, de maneira semi-eclipsada, que permite uma leitura, ou uma aprecia­ção. simultânea dos conteúdos incorporados na tela, trazendo significados a mais para o usuário.

b) Total: sobreposição que substitui em termos visuais e sonoros o conteúdo anterior, que obstrui por completo a percepção do texto, imagem ou som disponíveis no conteúdo anterior, mas que aparenta ao usuário uma sucessão de conteúdos, uma fruição da obra, um fluxo de significados de efeito comunicacional distinto da sobreposição parcial.

· Estruturação:

a) Espacial - link que define para o conteúdo de que forma se dá a sua apresentação na espacialidade do ambiente hipermidiático:
· estático - o link traz ou retira o conteúdo fixo na tela;

· dinâmico - o link traz ou retira o conteúdo em movimento na tela.

b) Temporal - comunicação sobre o acesso para diferentes momentos do desenvolvimento de determinado conteúdo (texto, imagem ou som, todos em movimento); o link permite ao usuário acessar ou interferir na apresentação do conteúdo nas seguintes modalidades:

· determinado - quando ha um tempo de espera, o usuário aciona o link que inicia e encerra a apresentação.

· continuo - onde o usuário acessa o conteúdo sem interferir na sua continuidade, o conteúdo esta em execução continua (looping) e é apresentado sem que o usuário possa determinar a exibição a partir do seu inicio, mas podendo interromper a sua execução a qualquer momento pela possibilidade de fechar ou mudar de conteúdo.

· editado – quando o usuário pode iniciar e terminar a apresentação em qualquer ponto de um conteúdo.

· Repetição:

Fator plenamente previsível pelo roteirista, a repetição de determina­do link promove certa identificação entre as telas; o usuário experimenta um tipo de ritmo durante a utilização; assim, a utilização que o usuário faz da obra constrói a unicidade, torna a obra hipermidiática una, coesa, um feito que é muito almejado por obras que possuem um número quase incontável de conteúdos e que não é garantido apenas pelo cuidadoso trabalho de coesão da arte gráfica e dos textos entre todas as telas da hipermídia..

Vicente Gosciola enriquece sua proposta de análise, quanto ao aspecto da origem das obras a serem analisadas, somando a definição elaborada por Lúcia Santaella[2] de tipos de hipermídia:

· instrucionais: voltados para a solução de problemas.
· ficcionais: incorporam a interatividade na escritura ficcional.
· artísticos: produção e transmissão de atividades criativas para a sensibilidade.
· conceituais: produção e transmissão de conhecimentos teórico-cognitivos.

Outra contribuição que o autor traz ao seu método de abordagem da hipermídia é a classificação dos tipos de roteiros proposta por Luli Radfahrer.[3]. Classificação esta, sintetizada a partir de sua experiência profissional e de suas observações, segundo Gosciola:

· lineares: tem a estrutura como uma seqüência obrigat6ria, com botões apenas para avançar, voltar, home page, tipo play - pelo qual as informações vão se sucedendo sem a possibilidade de interferência do usuário - e tipo stop.

· hierárquicos: são parecidos com organogramas e se estruturam por botões, de voltar ou home page;

· conectados: aglutinam informações por similaridade: as informações se correspondem mesmo sem ser especificamente comuns entre si através de links e estruturas de hipertexto;

· interativos: o próprio usuário pode definir a ordem das teclas;

· multidimensionais: prevê a possibilidade de transição entre os níveis de aprofundamento.

O cuidado, no detalhamento das propostas deste autor e suas influências, revelam o interesse em aplicá-los, com muita atenção, na concepção do exercício prático de construção de um site/blog TEATRÁLIA - resultado prático de desdobramento deste estudo – que experimente narrar um processo de criação teatral. Este será disponibilizado como mais um instrumento da criação, tanto entre os próprios artistas da cena quanto entre eles e possíveis espectadores on-line do processo, potenciais colaboradores.

[1] GOSCIOLA, Vicente. Roteiro para as novas mídias. São Paulo. Editora Senac, 2003.
[2] Lucia Santaella. "Hipermídia: a trama estética da textura conceitual”. em Sérgio Bairon & Luis Carlos Petry. /Hipermídia: psicanálise e história da cultura,, making of (Caxias do Sul. \ São Paulo: Educs \ Mackenzie. 2000). p. 9.

[3]Luli Radfahrer, Desing\web\desing: 2 (São Paulo: MarketPress, 2000), pp.137-138.

AGENCIAMENTOS COM OUTROS CARTÓGRAFOS I

Na literatura etnográfica encontrada para este novo ambiente, o ciberespaço, destaca-se quatro concepções que por seus encaminhamentos, são complementares no auxílio à elaboração desta ciberetnografia, isto é, cartografia do teatro. Todas foram selecionadas por um único critério: atuarem sobre hipertextos artísticos, disponibilizados na web. Para realizar este trabalho, na medida em que for apresentando os autores, suas categorias e definições encontradas, estarei articulando-os com os dados coletados em minha pesquisa online.


PROPOSTA CONSTRUÍDA PELO PROF. DR. GILBERTTO PRADO[1]:

Uma classificação possível, em categorias, das práticas narrativas hipermidiáticas disponibilizadas em rede, que de alguma forma refletem práticas contemporâneas e artísticas, é fornecida por Gilbertto Prado. O autor divide os trabalhos em duas tipologias distintas. A primeira, segundo suas próprias palavras:

· Site de divulgação: A maioria dos sites que se encontra sobre a rubrica "arte" na Internet fazem parte desta categoria, enquanto imagens digitalizadas do que está exposto em galerias e espaços museais. A rede nesses casos funciona basicamente como um canal de informação, onde o caráter de informação e de divulgação é prioritário e remetem todo tempo à obra "original" e/ou a seu autor e/ou ao espaço de exposição.Ainda dentro desta mesma categoria, embora como grupos intermediários (entre a via rede e na rede) estão os Museus Virtuais e Espaços de Exposições Eletrônicas, que servem como estruturas de divulgação de obras e mostras de artistas eletrônicos.


A maioria dos sites, por serem mais sobre teatro do que, de teatro, estão nesta categoria. A segunda, de fundamental interesse para esta pesquisa é a seguinte:


· Site de realização: Nesta categoria encontram-se os espaços e os eventos elaborados especificamente para atuarem na rede, priorizando a intervenção dos participantes. Essa participação pode ser compartilhada diretamente com outros usuários ou ser desencadeada a partir de dispositivos especificamente desenvolvidos para tais eventos. Aqui não se pretende definir os artistas por uma única forma de trabalhar como sua característica exclusiva. As diferentes aproximações artísticas de produção em rede não se excluem, elas são algumas vezes complementares e geralmente concomitantes.
(Fonte: http://www.cap.eca.usp.br/wawrwt/gilbertto/index.html)


Nós, os artistas da cena, por acreditamos na efemeralidade, presencialidade, essencialidade e todas as “idades” classificatórias do fazer teatral, dificilmente, pensamos em produzir sites na categoria de realização, porque isso nos parece impossível com a matéria teatral. Com uma proposta de desterritorializar o teatro e reterritorializá-lo em outra matéria, seriam raríssimas as obras disponibilizadas, mas é com precisão que Maria Luíza Fragoso[2] esclarece a amplitude desta categoria:

Atualmente, entre os vários sites de realização artística na internet, estão os sites poéticos, os técnico-formais, os irônicos, os ativistas, os subversivos, os blogs ou orkuts, os ambientes de colaboração telepresencial (CUSeeME, Ivisit, etc.), os de vídeo streaming, os buscadores em rede, os browsers, os narradores de estórias, os que viabilizam a produção e a destruição de interfaces, os ASCII, os ambientes interativos multiusuários (VRML), os desenhos em GPS, os onlines softwares, os pranks para a construção de identidades falsas, entre outros – a maioria deles, buscando dentro de seu estilo, cada vez mais, a comunicação e a interração com o usuário da Rede. (FRAGOSO, 2005, pg. 105).

Com esta ampliação do conceito de site de realização, podemos considerar que não somente a proposta da Sala de Ensaio Online, desenvolvida neste blog, está aí localizada, como também muitas das produções hipermidiáticas dos artistas da cena, em diversos gêneros digitais.

[1] Nasceu em Santos, em 1954. Artista multimídia, com doutorado em artes e ciências da arte pela Universidade de Paris I, Panthéon Sorbonne. Membro do grupo Art-Réseaux, Paris. Desde 1981, participa de exposições e projetos no Brasil e no exterior, como Doppo il Turismo Vienne iI Colonialismo (Centro Lavoro Arte, Milão, 1989); City Portraits/Art-Réseaux (Galerie Donguy, Paris, 1989); Moone, Atelier des Réseaux - Machines à Communiquer (La Villette, Paris, 1992); Mutations de l’Image, com o Art-Réseaux (Vidéothèque de Paris, 1994); Arte e Tecnologia (MAC/USP, São Paulo, 1995); Mediações (Itaú Cultural, São Paulo, 1997); City Canibal (Paço das Artes, São Paulo, 1998); e Seleção de Web Arte da 24ª Bienal Internacional de Sâo Paulo (1998). No ano de 1999, participa da 1ª Bienal de Arte da América Latina (La Grande Arche La Defense, Paris); da exposição Imateriais (Itaú Cultural, São Paulo); e da 2ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul (Porto Alegre). Em 2000, participa, entre outras exposições, de Medi@terra (Atenas); AAA/Isea (Paris); e Link_Age/Mecad (Barcelona). Foi professor do Departamento de Multimeios do Instituto de Artes da Unicamp. Atualmente, é professor do Departamento de Artes Plásticas da ECA/USP. (fonte: http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia/arttec/index.cfm?fuseaction=detalhe&cd_verbete=5960)

[2] Fragoso, Maria Luíza. Arte na internet, in Fragoso, Maria Luíza (org.) Arte >ou = a 4D – Arte Computacional no Brasil. Brasília. UNB, 2005.

Uma Cartografia do Teatro na Web


A viagem que se inicia com o “método cartográfico” é muito árdua e cheia de encruzilhadas; nesta não há o melhor caminho, nem o mais correto, não existe o verdadeiro, nem o falso, mas se encontra sim, o mais belo, o mais intenso, o que insiste em se presenciar, o que causa estranheza, temor...o que se equivoca, se espalha..., o que falha. (Denise Mairesse[1])

O que este sítio pretende desenvolver é uma cartografia, um mapa dessas obras. Esse mapa pode ser lido, de qualquer ponto. Nele, se pode entrar, em qualquer de suas partes. Como um procedimento de pesquisa, cartografar é compor uma paisagem que se monta e desmonta à medida que acontecem os "abalos"; é um tipo de desenho que se faz em movimento. O cartógrafo absorve matérias de qualquer procedência, ele é uma espécie de antropófago: vive de devorações, está sempre buscando/encontrando, usando/decalcando, teorias/elementos como alimentos para traçar suas cartografias (ROLNIK, 1989).

Bom ressaltar que esta cartografia é, de fato, resultado das Hibridações entre Teatro e Hipermídia, e será expandida em cada nova postagem. Problematizei como as possibilidades de aplicação da linguagem dessas novas escrituras mediadas por computador podem interferir nas práticas narrativas e modos de registro do processo de criação da cena, bem como, pensá-las como instrumentos do próprio ato da criação, então, é fundante neste blog, a revelação do corpo de construção desta cartografia que abordará as práticas narrativas hipermidiáticas do teatro.

Como é uma cartografia do fazer teatral disponibilizada no ciberespaço – o que já demanda especificidades de linguagem - penso ser necessário expor todo o percurso de identificação das categorias de análise. Estes grupos de categorias foram re-elaborados a partir de modelos já aplicados em outras áreas das linguagens artísticas – como categorias que procuram atender as especificidades e os interesses relativos a um estudo na área das artes cênicas.

O que se quer com esta cartografia, é contribuir com a produção de novos conhecimentos através da reflexão sobre as práticas narrativas hipermidiáticas da escritura cênica; que o ciberespaço, seja compreendido no âmbito desta pesquisa, como uma das esferas comunicativas de escrituras artísticas, crendo então ser justo, reconhecê-lo, como mais um espaço de inscrita e difusão da cena teatral, oferecendo a esta, um cenário por sua natureza efêmera, interativa e hipertextual. Assim como, o que se quer um dia, com o processo de criação de uma sala de ensaio online, será um risco.
SEGUINDO RASTROS CARTOGRÁFICOS
Trabalhar na construção desta cartografia, de tão peculiar constituição tem, entre seus desafios, uma escassez de precedentes, não em termos de utilização deste método, mas sim, pelas especificidades do fazer teatral. Não foi encontrado até o momento, um modelo para um projeto de cartografia que pudesse lidar com as amplas e diversificadas práticas narrativas hipermidiáticas de tantos outros projetos cênicos, cuja natureza é de infinitas hibridações artísticas, hoje tão recorrentes.

Por tudo isso, posso pensar esta cartografia, que dá sustentação à construção do arcabouço teórico da pesquisa e por ele é sustentada, como uma ciberetnografia; talvez por enxergá-la como cartografia de fronteira, híbrida; por ser o resultado da mistura de diferentes “métodos”, de diferentes autores/criadores, de diferentes áreas do conhecimento.

Chego a pensar que eu nem precisasse, para cartografar este objeto, de categorias definidas a priori, isto é, externas as obras em questão. Poderia, explicitamente, ouvir as próprias obras, deixando que categorias emergissem de seu interior. Mas examinar algumas propostas executadas em outras áreas artísticas torna-se importante, como referências tanto para este estudo quanto para o trabalho de outros pesquisadores.

Alguns esclarecimentos quanto a esta abordagem metodológica, faz-se necessário. Uma cartografia é um mapa, mas não significa que o pesquisador precise sair fazendo o mapeamento, segundo Rolnik:

Uma cartografia é diferente de um mapeamento; ela é a inteligibilidade da paisagem em seus acidentes, suas mutações; ela acompanha os movimentos invisíveis e imprevisíveis da terra - aqui, movimentos do desejo -, que vão transfigurando, imperceptivelmente, a paisagem vigente. (ROLNIK, 1989, p. 62).

O que o pesquisador-criador precisa fazer é fabular, criar afectos com os perceptos que o atinge. “Dele se espera, basicamente, estar mergulhado nas intensidades de seu tempo e que, atento às linguagens que encontra, devore as que lhe parecem elementos possíveis para a composição de cartografias que se fazem necessárias” (ROLNIK, 1996; 1997). Sendo assim, pode-se dizer que é tarefa do cartógrafo dar língua aos afetos. Segundo Deleuze, percepto e afecto são isso:

Tentei definir o percepto como um conjunto de percepções e sensações que se tornaram independentes de quem o sente. Para mim, os afectos são os devires: ora eles nos enfraquecem, quando diminuem nossa potência de agir e decompõem nossas relações (tristeza), ora nos tornamos mais fortes, quando aumentam nossa potência e nos fazem entrar em um indivíduo mais vasto ou superior (alegria) (DELEUZE, 1998, p.74).

Para se ter uma idéia da dimensão do objeto de pesquisa, sem recortes e categorias definidas a priori, pude brincar com um dos buscadores disponíveis: o site de busca “Google”. Este dispositivo de busca encontrou no último período pesquisado, de 01 a 15 de janeiro, 15.600.000 páginas sobre o assunto “teatro”, 2.400.000 páginas sobre “teatro+sites, 2.710.000 páginas sobre “teatro+de+grupo” e 795.000 sobre “teatro+web”. Com esses números, percebo a importância destas tecnologias no caso em questão, a quantidade de produção hipermidiáticas, de e sobre os artistas da cena, mas também considero que esses dados não dizem do objeto em si e nada comprova do que está ocorrendo na prática.


[1] Denise Mairesse é mestre em Psicologia Social e Institucional Pela UFRGS. Autora do artigo Cartografia: Do método à arte de fazer pesquisa in FONSECA, Tânia M. G. e KIRST, Patrícia G.- Cartografias e Devires: A Construção do Presente.UFRGS Editora,2003, pág.259-271.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

HÍBRIDOS COMO NET-CENAS

Como essas práticas narrativas hipermidiáticas do fazer teatral, já estão disponibilizadas na internet, podemos fazer referência aos mais variados formatos, como por exemplo, sites dos edifícios teatrais, blogs de artistas da cena, os grupos de discussão
sobre questões da linguagem teatral, fotologs de atores[1], videologs de montagens, podcasts de grupos de teatro [2], etc.

Antes de começar a cartografá-los busquei nos escritos de Marcuschi[3] orientações metodológicas sobre a diferenciação entre termos. Segundo este autor, essas escrituras virtuais podem ser caracterizadas por gêneros digitais publicados em diversos ambientes virtuais:

TERMINOLOGIA BÁSICA PARA A COMPREENSÃO DAS NET-CENAS:

I) - AMBIENTES DIGITAIS:

Os ambientes devem ser distinguidos dos gêneros em vários sentidos. Esses ambientes, também denominados de entornos virtuais, abrigam e por vezes condicionam os gêneros. Wallace, diz que os ambientes “não são domínios discursivos, mas domínios de produção e processamento textual em que surgem os gêneros”. ( Marcuschi apud wallace, 2004, pg. 26)

Afirmo que o que apresentarei a seguir, não deve ser lido como uma tipologia nem uma relação exaustiva de ambientes proposta pelo autor, como ele mesmo esclarece. Principalmente, considerando as inovações ocorridas no ano de 2005, período posterior ao lançamento de seu livro. Portanto, os ambientes da internet identificados são os seguintes:


1) AMBIENTE WEB [World Wide Web] – conhecido como WWW ou WEB, este ambiente é a própria REDE uma combinação de bibliotecas, quiosques, guias, jornais, shoppings, enciclopédias, catálogos, agendas, currículos pessoais etc. Trata-se de um ambiente de busca de todos os tipos, descentralizado, interativo e passível de expansão ilimitada.

2) AMBIENTE E-MAIL [correio eletrônico] – trata-se sobretudo de um meio de comunicação interpessoal com remessa e recebimento de correspondência entre familiares, amigos, colegas de trabalho, empresas, pesquisadores e assim por diante. Ao lado das salas de bate-papo, o e-mail é hoje o mais popular ambiente virtual.

3) FOROS DE DISCUSSÃO ASSÍNCROCOS – aqui se forma um ambiente para discussão de temas específicos, listas de grupos e assim por diante. As relações são continuadas e movidas por interesses comuns. É um ambiente que envolve vários gêneros.

4) AMBIENTE CHAT SÍNCRONO – trata-se dos ambientes em salas de bate-papos entre várias pessoas simultaneamente ou em ambiente reservado. Tem vários formatos no estilo de uma conversação em tempo real. Também vem sendo usado para aulas chat.

5) AMBIENTE MUD – o nome vem dos jogos que tinham esses nomes e eram jogados por pessoas que formavam uma rede de jogadores. Há outros jogos como o MOO, MUSH que permitem criar personagem, inserir músicas, falas etc. São ambientes interativos.

6) AMBIENTES DE ÁUDIO E VÍDEO [videoconferências] – são ambientes em que se tem vídeo e voz síncronos e servem a várias finalidades, particularmente para conferências. Embora esteja ainda no início de sua exploração, essa tecnologia é muito sofisticada. Quando muito desenvolvidos, esse deverão trazer grandes novidades e mudar as relações interpessoais hoje em boa parte anônimas nos chats. (Marcuschi, 2004, pg. 26/27).



II) GÊNEROS DIGITAIS:


O artigo de Marcuschi, de onde foram retirados os ambientes acima citados, focaliza principalmente a questão dos novos gêneros emergentes no contexto da tecnologia digital. O autor revela que compreende esses gêneros como relativamente variados, mas que a maioria deles tem similares em outros ambientes, tanto na oralidade quanto na escrita. Cito trechos de seu texto que definem o que seja o gênero digital:


Um gênero é um padrão de comunicação criado pela combinação de forças individuais, sociais e técnicas implícitas numa situação comunicativa recorrente. Um gênero estrutura a comunicação ao criar expectativas partilhadas acerca da forma e do conteúdo da interação, atenuando assim a pressão da produção e da interpretação. (...) O gênero parece ser um enquadre [frame] útil para analisar e projetar sistemas convencionais online porque ele fornece o pano de fundo [foregrounding] para o meio discursivo e encoraja o exame de caminhos nos quais características domeio moldam as práticas que se dão no seu interior. (Marcuschi apud Erickson, 2004, pg. 24/25)


Da categorização dos gêneros digitais, em múltiplos formatos, apresentada por Marcuschi, me ajudou na identificação dos gêneros que já estão sendo utilizados pelo teatro. Adaptei já em suas definições, isto é, empregando nelas os termos teatrais, os gêneros digitais considerados passíveis de serem utilizados como práticas narrativas hipermidiáticas do fazer teatral e, principalmente, de serem utilizados na construção deste estudo-blog:

· e-mail – correio eletrônico com formas de produção típicas e já padronizadas. Inicialmente um serviço (electronic mail), resultou num gênero (surgiu em 1972/3 nos EUA e esta hoje entre os mais praticados na escritura).

· Chat; pessoas interagindo simultaneamente em relação síncrona e no mesmo ambiente. Este gênero se desdobra em aberto, reservado, agendado e privado.

· Chat em aberto (bate-papo virtual em aberto – room-chat) – inúmeras pessoas interagindo simultaneamente em relação síncrona e no mesmo ambiente. Surgiu como IRC na Finlândia em 1988.

· Chat reservado (bate-papo virtual reservado) – variantes dos room-chats do tipo anterior, mas com as falas pessoais acessíveis apenas aos dois interlocutores mutuamente selecionados, embora possam continuar vendo todos os demais em aberto.

· Chat agendado (bate-papo virtual agendado - ICQ) – variante dos anteriores, mas com a característica de ter sido agendado e oferecer a possibilidade demais recursos tecnológicos na recepção e envio da arquivos.

· Chat privado (bate-papo virtual em salas privadas) – são os bate-papos em sala privada com apenas dois parceiros de diálogo presentes; uma espécie de variação dos bate-papos de tipo Chat em aberto.

· Entrevista com convidados: forma de diálogo com perguntas e respostas num esquema diferente dos tipos anteriores.

· e-mail educacional: interações entre pessoais de um pequeno grupo (sala de aula, oficina, elenco e etc) tanto no formato de e-mail ou de arquivos hipertextuais podendo determinar temáticas diversas realizáveis em contatos assíncronos.

· Vídeo-conferência interativa: realizada por computador e similar a uma interação face a face; uso da voz pela rede de telefonia e a cabo.

· Aula chat (chat educacional) – interações síncronas no estilo dos chats com finalidade educacional, geralmente para tirar dúvidas, dar atendimento pessoal ou em grupo e com temas prévios.

· Lista ou Grupo de Discussão (mailing list) - grupos de pessoas com interesses específicos em teatro, que se comunicam em geral de forma assíncrona, mediada por um ou mais gerentes do grupo que organizam as mensagens (eventualmente fazem triagens) e postam documentos de diferentes naturezas.

· Endereço eletrônico: o endereço eletrônico seja pessoal ou para a home page, tem hoje características típicas e é um gênero.

· Weblog (blogs; diários virtuais): são diários pessoais de criadores da cena; uma escrita autobiográfica com observações diárias ou não, agendas, anotações em geral. Há também desdobramentos neste gênero: são diários de grupos de teatro; são diários de espetáculos.

Marcuschi quando trata de ambientes virtuais e gêneros digitais considera a home page (portal, sítio, página) não como gênero e sim, como ambiente virtual. Para ele, autor, “ela não passa de um ambiente específico para localizar uma série de informações, operando como um suporte e caracterizando-se cada vez mais como um serviço eletrônico” (2004 pg. 25/26).

Destaco que este ambiente me interessa, particularmente, como um possível formato a ser estudado e adaptado, para a concepção do experimento de prática narrativa hipermidiática, apesar das considerações do autor citado. Penso que este ambiente comporta, muito bem, um espaço para os processos de criação de artistas da cena. Nesta categoria se enquadram sites que tem como principal característica grande quantidade de links já em sua página inicial, abrangendo todos os aspectos e categorias de sites existentes na web. Outra característica de obras dessa natureza é que costumam veicular em sua primeira página notícias sobre a área em questão, fórum de debates, entrevistas com artistas consagrados e seções de artigos.

No Ciberpodcast número 3 do Centro Internacional de Estudos e Pesquisa em Cibercultura – CIBERPESQUISA da UFBA[4] , o Prof. Dr. André Lemos declara que o formato site tenderá a desaparecer, dando lugar, majoritariamente, ao blog, ou melhor, ao que ele denomina, de site/blog. Concordando plenamente com esta reflexão, principalmente por considerar esta hibridação, site/blog, passível de proporcionar ao artista da cena uma manipulação direta com este formato, na sua maioria, pré-determinado, acolho esta idéia como proposta para o projeto de concepção da prática narrativa hipermidiática apresentada neste estudo, no decorrer da construção deste blog.
Cabe agora a mim, tanto como artista quanto como mestre de ofício, iniciar o exercício de cartografar estas escrituras que nos trazem o teatro – sua história, produções, processos, criadores, rastros, fragmentos, etc. – compreendendo sua linguagem e suas funções filosóficas, sociais e políticas; seu papel na contemporaneidade.

[1] O fotolog é um tipo de diário on-line (weblog), localizado em sites especializados, em que qualquer usuário pode postar fotografias digitalizadas e comentários. A análise que se segue refere-se, especialmente, aos fotologs que têm como conteúdo principal a veiculação de fotos amadoras sobre a vida privada. Segundo uma pesquisa da empresa americana de estatísticas StatSoft R&D, realizada em 2004, 13,6 % dos usuários da Internet veiculam fotografias pessoais para, através da rede, compartilhá-las com outros. (fonte: http://www.studium.iar.unicamp.br/22/04.html).
[2] O podcast é um sistema de produção e difusão de arquivos sonoros que guardam similitudes com o formato dos programas de rádio. O sistema funciona da seguinte forma: com um computador doméstico equipado com um microfone e softwares de edição de som, o usuário grava um programa (sobre o que quiser), salva como arquivo de som (MP3, por exemplo) e depois torna-o disponível em sites que são indexados em agregadores RSS (Really Simple Syndication)[3]. O usuário baixa o arquivo para o computador e daí para seu tocador de MP3. O sistema, criado pelo ex-VJ da MTV americana Adam Curry, pressupõe a cadeia completa de produção e de distribuição. Fonte: Podcast. Emissão Sonora, futuro do rádio e cibercultura. in 404nOtF0und, n. 46, junho de 2005., in http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/404nOtF0und/404_46.htm (12/06/2005).
[3] MARCUSCHI, Luis Antônio – Gêneros textuais emergentes no contexto da tecnologia digital in MARCUSCHI, Luis Antônio e XAVIER, Antônio Carlos (org.) – Hipertexto E_Gêneros_Digitais. Rio de Janeiro. Editora Lucena, 2004.
[4] http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/cibercast/2005_10_01_archive.html

As práticas narrativas hipermidiáticas de processos de criação de artistas da cena


Por absorver este conceito para o interior de minha pesquisa, o meu desejo pelo teatro se amplia. Desejo um conjunto, em conjunto. E se desejar é construir agenciamentos, quero agenciar o meu teatro com esta nova cena, ela própria resultante do agenciamento entre as novas tecnologias da informação e as novas redes telemáticas. Esta nova cena já tem um espaço, uma via, uma infovia: é o ciberespaço. Ao desterritorializarmo-nos, como artistas da cena, em sites - que farão de nossas escrituras possibilidades de novas reterritorializações criativas – re-visitamos nossas criações para desconstruí-las em novos suportes e em nova materialidade, produzindo novas criações, Tudo isto de forma sempre coletivizada, pois a cada novo acesso, é a mão do usuário que, também cria e do artista que recria. Exercício fundamental para todos nós.

O processo de publicação do privado pelo ciberespaço – como é o caso da sala de ensaios, até hoje reservada apenas para alguns eleitos; as vidas de obras em construção, abertas a tantos e variados acessos, a interação entre autor-obra-leitor, em rede, como novas poéticas digitais produzindo novas obras de arte, são questões que já apontam que é chegada a hora, de aproximarmos as artes da cena, definitivamente, das novas formas hipermidiáticas. Formas que possam ir além de blogs de celebridades e que, já podem demarcar um espaço de valor, como produtos da cibercultura, tanto pela quantidade quanto pela qualidade de websites que dizem muito do teatro, na contemporaneidade.

Quando se fala, hoje, do poder virtual no mundo globalizado, não é mais possível desconhecer o que seja o poder da cibercultura - concentrado ou não no ciberespaço; escrito em formatos hipermidiáticos - e que muito mais que obras únicas e reprodutíveis, geram obras disponibilizáveis. Esta disponibilidade da escrita eletrônico-digital é explicitamente revelada, não apenas por seus baixos custos ou sua facilidade de copiagem, mas sim e, fundamentalmente, por seu caráter de interatividade. Para este blog, as idéias de interatividade defendida por Lemos, deixam claras as intenções desta pesquisa:


A interatividade digital caminha para a superação das barreiras físicas entre os agentes (homens e máquinas), e para uma interação cada vez maior do usuário com as informações, e não com objetos no sentido físico.[...] Essa nova qualidade da interatividade (“eletrônico-digital”), como os computadores e o ciberespaço, vai afetar de forma radical a relação entre o sujeito e o objeto na contemporaneidade. [...] A interatividade digital, a partir dos hipertextos, fez com que os produtores culturais mudassem suas formas de concepção dos conteúdos de seus produtos. Assim, se com o “broadcasting” os produtores tinham como objetivo realizar uma programação que captasse a audiência de forma homogênea, com os novos media digitais interativos, o que está em jogo é um “metadesign”. [...] O “metadesign” deixa livre o utilizador para que ele participe também do processo de concepção. Estabelece-se, dessa forma, um processo não-linear de concepção e de utilização (interatividade) dos conteúdos.
(Disponível em
http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/lemos/artigos.html acessado em 24 de dezembro de 2005).



As práticas narrativas hipermidiáticas de processos de criação de artistas da cena, que assumem formatos diversos no ciberespaço - sites, blogs, fotologs, vídeologs, podcasts, grupos de discussão, etc., formam, potencialmente, o conjunto de gêneros digitais que, se caracterizam como objeto de minha pesquisa. Para problematizá-los, ativo-os com as seguintes questões: Como as configurações das escrituras digitais (websites, blogs, grupos de discussão, etc.) seriam mídias propícias ao registro e narração de processos de criação das artes da cena, considerando, aproximações e diferenças entre as propriedades das duas linguagens, a cênica e a multimidiática? Como a utilização de recursos eletrônico-digitais aumentaria as possibilidades de instaurar novos processos de registros da criação teatral? E, ao produzir uma escrita digital, portanto hipermidiática, durante o processo de construção do trabalho cênico, que revele seus elementos constitutivos, como seria possível a sua utilização como um novo assistente de criação dentro do processo?

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Rizomas de fronteiras

Para continuar com minha reinvenção do Teatro, me perece que já posso trazer outros autores para me acompanharem em novas concepções de teatro; em net-cenas. Para trazê-los, preciso reinterpretar alguns conceitos de minha pesquisa anterior, defendida como dissertação de mestrado e publicada em 2005, sob o título de Dramaturgia Pessoal do Ator[1]. Esta obra versa sobre A História de Vida no Processo de Criação de Hamlet: Um Extrato de Nós com o Grupo Cuíra em Belém do Pará, construindo uma outra concepção de teatro e de trabalho de ator. São estes confrontos de idéias que reinventam um saber.

Para o corpo da referida dissertação, eu desejei que a abordagem conceitual acompanhasse o pensar artístico dos criadores de meu objeto de pesquisa. Encontrei-me com o pensamento de Deleuze e Guattari e seu sistema conceitual rizomático. Serão, esses mesmos autores, a me acompanhar na sustentação teórica deste meu novo texto, agora em forma de blog, localizando-a com uma abordagem filosófica da questão.

Estes filósofos propõem que o pensamento, além da forma arborescente – que implica uma hierarquização - pode também configurar-se de outra maneira: o pensamento como rizoma, um pensamento que se faz múltiplo, se quer com diferentes formas, quer subtrair o uno da multiplicidade a ser construída. Segundo os autores, “o rizoma tem muitas formas diversificadas que vão desde sua extensão superficial ramificada em todos os sentidos até suas concreções em bulbos e tubérculos”. (2000; 15). Acreditam que o pensamento humano está mais para um perfil rizomático, do que para um perfil arborescente.

O conceito de rizoma me foi pertinente para o pensar teatro, específico daquele estudo. Este teatro-pensamento se quis radículas em muitas partes (pequenas raízes espalhadas pela superfície, ampliando-se em todas as direções e não apenas na vertical). Ele quis espalhar-se, fazer conexões, rupturas, comunicar-se, abrir pontos de fuga, vir a ser algo ou alguma coisa que não sabia de antemão, que desconhecia. Como a coisa teatro ainda me parece desconhecida neste ponto do texto, começo a trabalhar para estabelecer conexões entre os autores.

Por pensar o fazer teatral com outra configuração, elegi, naquele momento da dissertação, a montagem de Hamlet – Um Extrato de Nós, mais especificamente, a construção da Dramaturgia Pessoal do Ator - que este processo de criação propunha - como objeto de minha primeira pesquisa na pós-graduação.

O Grupo Cuíra, com a direção cênica de Cacá Carvalho[2], não intencionava fazer apenas mais uma montagem do texto shakespeariano. O que eles estavam propondo era que o texto fosse o último elemento a ser visitado para a construção das cenas. As cenas seriam acontecimentos inventados a partir de vários elementos indutores da criação[3], de diferentes naturezas. Para a direção, a cena deveria ser um extrato: o sumo de uma mistura de várias construções, questões, respondidas e não respondidas pelos atores, a diferentes estímulos e estratégias montadas para capturar o que chamou de dramaturgia pessoal do ator.

Percebi já naquele trabalho que, a minha maneira de pensar teatro, tinha certa configuração. Como se configurava este meu pensar? Não pensei, e não penso, o teatro como uma forma enraizada no texto e só nele. Gosto de pensá-lo independente de qualquer ponto; não dependente de uma única raiz. O meu pensar teatro não quer que, apenas um, dos elementos da linguagem cênica - como a luz, o som, a cenografia, o texto ou qualquer outro - seja o tronco da obra e para este tronco, tudo converta. Ele quer diversificar-se. Quer dar mais autonomia ao ator como criador de cenas.

A teoria do rizoma de Deleuze e Guattari, bem contrária a qualquer teoria arborescente - como, por exemplo, a que acredita que o texto dramático é a raiz de todo fazer teatral - segue seis princípios: os princípios de conexão e de heterogeneidade são os dois primeiros. O da conexão revela que qualquer ponto do rizoma pode ser conectado a qualquer outro e deve sê-lo. O da heterogeneidade, que cada um dos traços não remete necessariamente a traços de mesma natureza; um traço lingüístico não remete somente a outro traço lingüístico. Quando pensei na natureza daquele fazer teatral acreditei ser dela também estes dois princípios. Foi e é possível, conectar qualquer ponto da obra cênica com qualquer outro ponto (princípio da conexão), assim como, um traço de uma determinada natureza - como, por exemplo, a sonora - pode remeter a um traço de uma outra natureza como a plástica; um traço lingüístico remeter a um traço gestual (princípio da heterogeneidade).

O rizoma opera com um terceiro princípio: o da multiplicidade. Deleuze e Guattari concebem a realidade como substantiva; ela não é apenas múltipla, ela é multiplicidade. Para eles, “uma multiplicidade não tem nem sujeito nem objeto, mas somente determinações, grandezas, dimensões que não podem crescer sem que mude de natureza (as leis de combinações crescem então com a multiplicação)” (2000 p.16). O rizoma, sendo multiplicidade, é como os fios que desenham a trama, que é a realidade. O teatro tem na trama uma de suas grandes metáforas; no que é tecido. O fazer teatral apresenta uma maior performance quanto maior for sua possibilidade de combinações. Como a realidade, o teatro precisa ser multiplicidade.

As multiplicidades são a própria realidade, e não su­põem nenhuma unidade, não entram em nenhuma totali­dade e tampouco remetem a um sujeito. As subjetivações, as totalizações, as unificações são, ao contrário, processos que se produzem e aparecem nas multiplicidades. Os prin­cípios característicos das multiplicidades concernem a seus elementos, que são singularidades, a suas relações, que são devires, a seus acontecimentos, que são hecceidades (quer di­zer, individuações sem sujeito); a seus espaços-tempos, que são espaços e tempos livres, a seu modelo de realiza­ção, que é o rizoma (por oposição ao modelo da árvore); a seu plano de composição, que constitui platôs (zonas de intensidade contínua); aos vetores que as atravessam, e que constituem territórios e graus de desterritorialização.(DELEUZE; GUATTARI,1995, P.8).

O pensamento Deleuzo-Guattariano propõe um quarto princípio para o rizoma: o princípio de ruptura a-significante. Este pensamento coloca que um rizoma pode ser rompido, quebrado em um lugar qualquer. Que ele pode retomar em qualquer uma de suas linhas e até mesmo segundo outras linhas.

Todo rizoma compreende linhas de segmentariedade segundo as quais ele é estratificado, territorializado, organizado, significado, atribuído, etc.; mas compreende também linhas de desterritorialização pelas quais ele foge sem parar. Há ruptura no rizoma cada vez que linhas segmentares explodem numa linha de fuga, mas a linha de fuga faz parte do rizoma. (...) Faz-se uma ruptura, traça-se uma linha de fuga, mas corre-se sempre o risco de retornar nela organizações que reestratificam o conjunto, formações que dão novamente o poder a um significante, que reconstituem um sujeito – tudo o que se quiser, desde as ressurgências edipianas até as concreções fascistas. (DELEUZE; GUATTARI, 1995 p.18).

Este quarto princípio, do qual estamos tratando, novamente, é também chamado de o princípio do Devir. Acredito ser ele o mais importante neste diálogo com o fazer teatral. O trabalho do ator é esse jogo de desterritorializar-se. Ele quer encontrar uma linha de fuga à sua figura territorializada e apresentada como identificatória: a da pessoa social do ator, que é uma de suas possíveis configurações territoriais. Ele tem a pretensão de, ao sair, se reterritorializar com uma outra configuração. O trabalho do ator é um jogo do Devir.

O quinto e o sexto princípios do rizoma são o de cartografia e de decalcomania. Não há nenhum modelo estrutural ou gerativo que justifique o rizoma. Ele não precisa de nada assim, para justificá-lo. O rizoma não apresenta uma unidade pivotante objetiva sobre a qual se organizam estados sucessivos e, muito menos, uma lógica do decalque e da reprodução. Para Deleuze e Guattari, o rizoma é diferente: ele é mapa e não decalque.

O mapa é aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente. Ele pode ser rasgado, revestido, adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação social. Pode-se desenhá-lo numa parede, concebê-lo como obra de arte, construí-lo como uma ação política ou como uma meditação. Uma das características mais importantes do rizoma talvez seja a de ter sempre múltiplas entradas.(...) Um mapa é uma questão de performance, enquanto que o decalque remete sempre a uma presumida ‘competência”. (DELEUZE; GUATTARI; 2000; p. 22)

A realidade, já disse Deleuze, é multiplicidade. Repito que é bem diferente de entendê-la como múltipla. É necessário substanciá-la: multiplicidade. Como o teatro é realidade inventada precisa inventar as suas multiplicidades.

Deleuze pergunta-nos: “Como recusar ao agenciamento - para o autor, o mesmo que acontecimento - o nome que lhe cabe, desejo?” (DELEUZE; PARNET; 1998 p. 51). Para esta experimentação do desejo é necessário que este teatro construa acontecimentos, faça agenciamentos, traia toda e qualquer escritura.

Ser traidor de seu próprio reino, ser traidor de seu sexo, de sua classe, de sua maioria – que outra razão para escrever. É ser traidor da escritura. (...) É que trair é difícil, é criar. É preciso perder sua identidade. É preciso desaparecer, tornar-se desconhecido. (...) Perder o rosto. (DELEUZE; PARNET; 1998 p. 58).

Como o trabalho do ator é agenciar-se com toda a realidade, que se manifesta na forma de acontecimentos, o que cabe a ele, ator, captar destes acontecimentos? Segundo Almeida[4], os artistas teriam que arrancar o percepto das percepções e o afecto das afecções vividas. Para esta pesquisadora, “o percepto é esta visão hiper-dimensionada que excede a percepção (...) e o afecto é o que penetra nas transformações de sentimentos mais desconhecidas (...), fabulando, por fim, um afeto novo, como o tornar-se-girassol de Van Gogh”. (2001, p. 85).

Para Deleuze a obra artística é a única coisa no mundo que se conserva e se conserva em si. É certo que ela não dure mais que seu suporte e seus materiais. A obra cênica dura o tempo de um gesto, mas se conserva enquanto ele existir, em toda a sua plenitude. Mas o que conserva a obra teatral, este gesto artístico, para o filósofo?

O que se conserva, em cada obra de arte como monumento, é um bloco de sensações presentes, que celebra um acontecimento, para além da representação dos objetos e dos sujeitos, para além das percepções e dos sentimentos do vivido. (...) “A obra de arte é um ser de sensações, e nada mais: ela existe por si”. (1992, p. 213).

Deleuze em seu livro Prost e os signos (2003) ao escrever sobre o aprendizado, diz que “a própria arte parece ter seu segredo nos objetos a descrever, nas coisas a designar, nas personagens ou lugares a observar”. Ela precisa sustentar a si mesma, se não, não é uma obra artística. Diria que esta reflexão cabe tanto as obras hipermidiáticas quanto cabe a todo e qualquer ato criativo.

Como arrancar perceptos e afectos dos corpos – estas duas figuras estéticas que compõem a sensação - com os quais os atores se agenciam com os quais produzem acontecimentos? O ator precisa inventar procedimentos. E isso varia de criador para criador. Como cada artísta tem seus próprios métodos e técnicas, cada ator tem sua própria dramaturgia, cada processo de criação seus próprios métodos, Deleuze propôs caracterizar grandes tipos monumentais, ou, como ele chama, “variedades de compostos de sensações”. Segundo a sua proposta, há a vibração, que é aquela sensação simples, mas já é durável ou composta, porque sobe e desce, implicando uma diferença de nível constitutiva, seguindo uma corda invisível, esta, mais nervosa que cerebral. Há também o enlace ou corpo-a-corpo, que é quando duas sensações ressoam uma na outra esposando-se tão estreitamente, num corpo-a-corpo que, para o pensador, é puramente energético. E finalmente, o que ele chama de o recuo, a divisão, a distensão que é quando duas sensações se distanciam, mas para só serem reunidas pela luz, o ar ou o vazio que se inscrevem entre elas, ou nelas. Concluo, com palavras de Deleuze: vibrar a sensação – acoplar a sensação – abrir ou fender, esvaziar a sensação. (1992, p. 218-219).

Deleuze formulou, nesta relação com a sensação, o conceito de fabulação. Eu me pergunto: o ator fabula com as suas lembranças? O que o autor diz é que a fabulação criadora não é lembrança, mesmo amplificada, como um percepto. Ele diz que o artista excede os estados perceptivos e as passagens afetivas do vivido.
Como contaria ele o que lhe aconteceu, ou o que imagina, já que é uma sombra? Ele viu na vida algo muito grande, demasiado intolerável também, e a luta da vida com o que a ameaça, de modo que o pedaço de natureza que ele percebe, ou os bairros da cidade, e seus personagens, ace­dem a uma visão que compõe, através deles, perceptos des­ta vida, deste momento, fazendo estourar as percepções vi­vidas numa espécie de cubismo, de simultanismo, de luz crua ou de crepúsculo, de púrpura ou de azul, que não têm mais outro objeto nem sujeito senão eles mesmos. (DELEUZE; GUATTARI;1992, p. 222).


Como bem escreveu Marcos Palacios, eu preciso, em minha função de mestre de ofício, reinventar incessantemente. Por isso, DEVIR continua sendo a palavra-chave de todo o meu processo de criação, tanto nos trabalhos acadêmicos quanto nos artísticos. A palavra DEVIR encontrada nas obras destes dois pensadores franceses induzia-me, imediatamente, a pensar sobre o trabalho do ator. Talvez fosse sempre um DEVIR, o trabalho do ator. Confirmei e reconfirmo a possibilidade de experimentar sempre e sempre mais, o fazer de minhas pesquisas, com as idéias-forças contidas neste conceito, por estas palavras de Deleuze, sobre o DEVIR.

Devir é jamais imitar, nem fazer como, nem se ajustar a um modelo, seja ele de justiça ou de verdade. Não há um termo de onde se parte, nem um ao qual se chega ou se deve chegar. Tampouco dois termos que se trocam. A questão “o que você está se tornando?” é, particularmente, estúpida. Pois à medida que alguém se torna, o que ele se torna muda tanto quanto ele próprio. Os devires não são fenômenos de imitação, nem de assimilação, mas de dupla captura, de evolução não paralela, núpcias entre dois reinos.(DELEUZE; PARNET; 1998, p. 10).

Segundo o referencial teórico Deleuzo-Guattariano, a obra é um corpo, sim, mas um corpo constituído por fluxos e linhas de fuga. Nesta teoria, agenciar é estar no meio, sobre a linha de encontro de um mundo interior e de um mundo exterior. Posso dizer que, para os autores, agenciar-se é estabelecer acontecimentos, encontros; é principiar-se no caminho de um DEVIR. E que a única unidade do agenciamento é de co-funcionamento, é a “simpatia“, a simbiose. Para Deleuze, simpatia “não é um sentimento vago de estima ou de participação espiritual, ao contrário, é o esforço ou a penetração dos corpos; ódio ou amor (...) Os corpos podem ser físicos, biológicos, psíquicos, sócios, verbais, são sempre corpos ou corpus”. (1998 p. 66). Agenciar é estar entre corpos, entre obras de diferentes naturezas.Agenciar é o verbo que orienta a construção desta tese e por isso, ela se configura como uma cartografia.

Gilles Deleuze, em sua obra Comversações, escreve que um mapa é um conjunto de linhas diversas funcionando ao mesmo tempo como as linhas das mãos. Ele acredita que as linhas são os elementos constitutivos das coisas e dos acontecimentos. Como o autor considera que cada coisa tem sua geografia, sua cartografia. O que há, de interessante, inclusive numa pessoa, são as linhas que a compõem, ou que ela compõe; que ela toma emprestado ou que ela cria. Posso dialogar com esta mesma imagem em relação à personagem, a essa coisa, essa pessoa-ficcional. Portanto, uma personagem é um mapa, uma cartografia, dentro de outros mapas que são as cenas, de outra cartografia que é o espetáculo, de outra que é o Teatro e de outra que agenciam o teatro com outras cenas, como a cena multimidiática. Conexões cada vez mais dentro de outros dentros, de outros foras e, de foras cada vez maiores – coisa que eu já acreditava desde muito tempo.

A hipótese de minha pesquisa é que a escrita digital sobre processos de criação da cena, por sua natureza rizomática, isto é, com propriedades de interconexão, fragmentarização, heterogênese, multiplicidade, cartográfica, a-rupturidade significante, aproxima-se, em seus vários aspectos, dos processos de criação cênica, inclusive pela natureza efêmera de sua leitura-criação. Cada vez que é acessada, apresenta uma configuração extremamente singular. Sua escrita é única, para cada navegador-criador. Envolve cada navegador-criador com uma multi-estimulação proveniente da natureza hipermidiática do documento (texto, foto, vídeo, som e etc.). Exatamente como um espetáculo sempre é atualizado e único, a cada apresentação.

Gilles Deleuze declara à Claire Parnet em 1994, na gravação de um vídeo-documentário para a TV francesa, intitulado O Abecedário de Gilles Deleuze, que ele e Félix Guattari pretendíam propor um novo conceito de desejo. Este novo conceito de desejo me interessa na medida em que afirmo desejar fazer teatro; desejar estudar, pesquisar teatro. Se assim for, no que implica este desejo? Sobre este novo desejo, Deleuze declara:

Queríamos dizer a coisa mais simples do mundo: que até agora vocês falaram abstratamente do desejo, pois extraem um objeto que é, supostamente, objeto de seu desejo. Então podem dizer: desejo uma mulher, desejo partir, viajar, desejo isso e aquilo. E nós dizíamos algo realmente simples: vocês nunca desejam alguém ou algo, desejam sempre um conjunto. Não é complicado. Nossa questão era: qual é a natureza das relações entre elementos para que haja desejo, para que eles se tornem desejáveis? Quero dizer, não desejo uma mulher, tenho vergonha de dizer uma coisa dessas. Proust disse, e é bonito em Proust: não desejo uma mulher, desejo também uma paisagem envolta nessa mulher, paisagem que posso não conhecer, que pressinto e enquanto não tiver desenrolado a paisagem que a envolve, não ficarei contente, ou seja, meu desejo não terminará, ficará insatisfeito. Aqui considero um conjunto com dois termos, mulher, paisagem, mas é algo bem diferente. Quando uma mulher diz: desejo um vestido, desejo tal vestido, tal chemisier, é evidente que não deseja tal vestido em abstrato. Ela o deseja em um contexto de vida dela, que ela vai organizar o desejo em relação não apenas com uma paisagem, mas com pessoas que são suas amigas, ou que não são suas amigas, com sua profissão, etc. Nunca desejo algo sozinho, desejo bem mais, também não desejo um conjunto, desejo em um conjunto. (...) Não há desejo que não corra para um agenciamento. O desejo sempre foi, para mim, se procuro o termo abstrato que corresponde a desejo, diria: é construtivismo. Desejar é construir um agenciamento, construir um conjunto, conjunto de uma saia, de um raio de sol... (Disponível em http://www.oestrangeiro.net/ e acessado em 24 de dezembro de 2005).

[1] Lima, Wlad. Dramaturgia Pessoal do Ator. Belém. Publicação independente do Grupo Cuíra do Pará, 2005.
[2] Carlos Augusto Carvalho é uma das maiores figuras nacionais na área teatral. O paraense que saiu do Grupo Experiência, ganhou fama mundial como Macunaíma, dirigido por Antunes Filho. Ao longo dos últimos anos, como ator, vem colecionando êxitos como Meu Tio Iauaretê, 25 Homens e mais recentemente, O Homem com a Flor na Boca. Faz parte do Centro de Experimentação e Pesquisa Teatral em Pontedera, Itália, onde passa grande parte do ano. Em Belém, dirigiu Senhora dos Afogados, para o Grupo Experiência; Nunca houve uma mulher como Gilda, Convite de Casamento e Toda minha vida por ti para o Grupo Cuíra do Pará. Trabalhou na novela Torre de Babel e nas séries, Você Decide e A Muralha, da Rede Globo. Dirigiu a peça O Visconde Partido, do Grupo Galpão, de Belo Horizonte. Como ator, seus espetáculos mais recentes são Fim do Jogo, de Samuel Beckett e A poltrona Escura, de Luigi Pirandelo.
[3] Elementos indutores da criação ou Manual de cavalaria é o sistema de estímulos e estratégias para a criação da dramaturgia pessoal do ator.
[4] Doutora em Lingüística (Unicamp) e professora-visitante da Universidade Federal Fluminense.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

A Idéia do Teatro segundo Ortega & Gasset

Para escrever sobre o que seja a cena teatral na contemporaneidade, começo trazendo a este texto, a contribuição de José Ortega & Gasset, filósofo espanhol, cuja obra A Idéia do Teatro, trás a resposta do autor a uma questão vital para esta escrita, qual seja: o que é essa coisa chamada teatro?


A coisa chamada teatro, como a coisa chamada homem, são muitas, inumeráveis coisas diferentes entre si que nascem e morrem, que variam, que se transformam a ponto de, à primeira vista, uma forma não parecer-se em nada com a outra. (...) Pelo fato mesmo de que uma coisa é sempre muitas e divergentes coisas, nos interessa averiguar se por entre e em toda essa variedade de formas não subsiste, mais ou menos latente, uma estrutura que nos permita chamar a inumeráveis e diferentes indivíduos de “homem”, a muitas e divergentes manifestações de “teatro”. (Ortega & Gasset; 1991, pg 18).



Para fazer uma idéia do teatro, a idéia do teatro, Ortega & Gasset propõe a “des-ocultação do teatro, isto é, tornar patente o que está latente; revelar essa estrutura que debaixo de suas modificações concretas e visíveis permanece idêntica; o ser da coisa”. Com todas as significações que a palavra teatro pode ter a primeira que Ortega apresenta é: o teatro como um edifício; o edifício teatral. Considerando esta definição, o autor argumenta que o que está fora da arquitetura teatral, são espaços planetários e o que está por dentro desta arquitetura é o que a torna, especificamente, uma arquitetura cênica.


Não há uma só palavra na língua que não tenha várias significações; quase sempre muitas. (...) O teatro é antes de tudo, nem mais nem menos, um edifício – um edifício de estrutura determinada. (...) Um edifício é um espaço demarcado, isto é, separado do resto do espaço que permanece fora. A missão da arquitetura é construir, frente ao “fora”do grande espaço planetário, um “dentro”. (Ortega & Gasset; 1991, pg 28).



Ao considerar essa significação de edifício, o teatro para este filósofo, atinge o que ele denomina de: as dualidades do ser Teatro. Um jogo que está diretamente vinculado ao seu ser arquitetura, edifício. Essas dualidades são: a dualidade física (palco e platéia), a dualidade humana (ator e espectador) e a dualidade funcional (fazer para ser visto e ver). Dentro desse edifício encontramos dois espaços fisicamente distintos, mas totalmente relacionais: o palco e a platéia. Segundo ele, o mais característico de sua forma interior, se apresenta como ele mesmo falou como espaço demarcado. Um “dentro” que se pode chamar de teatro e que está, por sua vez, dividido em dois espaços: a sala e a cena.

A sala está cheia de assentos; as poltronas e os camarotes. Isto indica que o espaço “sala” está disposto para que alguns seres humanos – os que integram o público – estejam sentados e, portanto, sem fazer mais nada senão ver. Em troca, a cena é um espaço vazio, elevado a um nível mais alto que a sala, a fim de que nela se movam outros seres humanos que não permanecem quietos como o público, mas sim ativos, tão ativos que por isso se chamam atores. (Ortega & Gasset; 1991, pg. 29)


O que se pode observar é que, da primeira dualidade, a física, surge uma segunda, a humana: na sala está o público; na cena, os atores. Ao associarmos essas duas dualidades, o teatro ganha em complexidade:


(...) Percebemos que esses homens e mulheres que se movem e falam no palco não são criaturas quaisquer, mas são esses homens e mulheres que chamamos de atores e atrizes, isto é, que se caracterizam por uma atividade especialmente intensa. Ao passo que os homens e mulheres de que o público se compõe, enquanto são público, caracterizam-se por uma especialíssima passividade. Com efeito, em comparação com o que fazemos o resto do dia, quando estamos no teatro e nos convertemos em público não fazemos nada ou pouco mais; deixamos que os atores nos façam – por exemplo, que nos façam chorar, que nos façam rir. Ao que parece, o Teatro consiste numa combinação de hiperativos e hiperpassivos. Somos, como público hiperpassivos porque a única coisa que fazemos é no mínimo fazer que cabe imaginar: ver e, para começar, nada mais. (Ortega & Gasset; 1991, pg 30)


Com esta citação feita acima, quero que as colocações do autor acerca da triangulação entre as dualidades, tragam à tona aquilo, que para ele, parece puramente funcional no Teatro: o ver e o ser visto. As dualidades: espacial de sala e cena, humana de público e atores e funcional de ver e ser visto, fecham à dimensão arquitetônica, da coisa chamada teatro. Algumas considerações acerca da teoria das dualidades do teatro precisam ser feitas, na tentativa de entender sua validade na cena contemporânea. Os palcos no modelo italiano foram preponderantes do séc. XVI até o início do séc. XX. Com o surgimento dos encenadores, no final do séc. XIX, a pesquisa cênica ganha novas induções na questão espacial. Há, claramente, ações de rupturas dessas relações duais do fazer teatral, inclusive influenciando na arquitetura cênica.
Hoje, a arquitetura cênica é múltipla. Há por todos os cantos do mundo, edifícios teatrais nos modelos arena, semi-arena, italiano, elisabetano e principalmente, os teatros de caráter experimental, aonde a arquitetura não fixa a cena, em apenas um desses modelos. Muito pelo contrário, sua filosofia é a da multifuncionalidade.
Esta arquitetura de caráter experimental nasce em função da necessidade eterna de reinventarmos o fazer teatral. Os artistas da cena, durante todo o séc. XX e ainda agora, no nascimento do séc. XXI, buscam quebrar as divisas entre o palco e a platéia, criando uma zona única que pretende misturar atores e espectadores, inclusive subvertendo suas funções, não mais, dividindo-os em hiperpassivos e hiperativos. Um bom exemplo desse radicalismo experimental são os espetáculos construídos em espaços não convencionais, isto é, espaços arquitetônicos que não teriam a função de abrigar a cena artística; não seriam espaços demarcados em sua natureza. Um outro formato que nasceu da necessidade de ruptura desses possíveis elementos essenciais é o happening e mais adiante, também explodiria uma nova linguagem: a performance art. Mas esta, fica para depois. Voltemos ao filósofo. Ortega & Gasset, nos pergunta se o Teatro não é também, um gênero literário? Sim, ele é um gênero literário, mais precisamente o dramático, gênero que acompanha, outros dois, o épico e o lírico. Mas Ortega faz várias restrições a este respeito. Primeiro ele diz, que é preciso se libertar por um instante do hábito mental que essa formula tão repetida produz em nós; da noção de Teatro como gênero literário.


Porque o literário se compõe só de palavras – é prosa ou verso e nada mais. Mas o Teatro não é apenas prosa ou verso. Prosa e verso há fora do Teatro – no livro, no discurso, na conversação, no recital de poesia – e nada disso é Teatro. (...) A palavra tem no teatro uma função constituinte, mas muito determinada; quero dizer que secundária à “representação” ou ao espetáculo. Teatro é por essência presença e potência de visão – espetáculo – e enquanto público, somos antes de tudo espectadores, e a palavra teatro, não significa senão isso: miradouro, mirador (Ortega & Gasset; 1991, pg 32)


O que é que vemos no palco? Esta pergunta apropriada a essa tese, é respondida, pelo próprio filósofo espanhol com uma dissertação poética que desenvolve a questão:


Mas o que vemos no palco? Por exemplo, vemos a sala de um castelo – palácio medieval no norte da Europa, que se abre largamente sobre um parque, precisamente o parque de Elsionor; vemos a margem de um rio que desliza em fluxo lento e triste, árvores que sobre suas águas se inclinam com vago pesar -, bétulas, álamos e um salgueiro chorão que deixa cair seus ramos. Não é certo, senhores, que o salgueiro é uma árvore que parece estar cansada de ser árvore? Vemos uma moça trêmula que traz flores e ervas nos cabelos, no traje, nas mãos e avança vacilante, pálida, o olhar fixo em um ponto da grande distância, como que olhando sobre o horizonte, onde não há nenhuma estrela, a estrela nenhuma. É Ofélia demente, coitada!, que vai baixar o rio. “Baixar o rio”é um eufemismo com que na língua chinesa se diz que alguém morre. Isto é, senhores, o que vemos. Mas não, não vemos isso! Será que por um instante padecemos de uma ilusão de ótica? Porque o que de fato vemos são somente telas ou cartões pintados; o rio não é rio, é pintura; as árvores não são árvores, são manchas de cor. Ofélia não é Ofélia; é.Marianinha Rey Colaço.[1] (Ortega & Gasset; 1991, pg 34)



Com estas palavras, o autor nos aproxima da transfiguração mais importante e prodigiosa do Teatro: a metamorfose. No palco, não achamos que estamos vendo duas mulheres, mas sim uma só. Apresenta-se Marianinha que re-presenta Ofélia. Tanto coisas quanto pessoas, no palco, são apresentadas, representando outras que não são elas. E isto é formidável e fica claro em seu texto, no seguinte trecho:


A realidade de uma atriz, enquanto atriz consiste em negar a sua própria realidade e substituí-la pela personagem que representa. Isto é re-presentar: que a presença do ator sirva não para ele presentar-se[2] a si mesmo, mas para presentar outro ser distinto dele. (Ortega & Gasset; 1991 pg. 35).




O palco possui planos; camadas sobre camadas. Onde, em primeiro plano, vejo Ofélia e um parque ou o lago onde ela, em breve, se afogará. Vejo também, em segundo plano - como se fosse um avesso - Marianinha e tecidos pintados. No palco - os atores em seus cenários, com seus objetos e palavras - são a metáfora visível. Não são seres ou coisas no sentido real, mas no sentido irreal; revelam o como se. Gostaria de concluir o diálogo com este autor, usando as suas palavras, sobre, o que é que sucede quando sucede uma metáfora. Ele parte daquele simples exemplo de metáfora – a moça comparada a uma flor - aonde a face da amada é como a flor; a pele do rosto amado é como as pétalas de uma rosa:


Ao metaforizar ou metamorfosear ou transformar a face em rosa é preciso que a face deixe de ser realmente face e que a rosa deixe de ser realmente rosa. As duas realidades, ao serem identificadas na metáfora, chocam-se uma com a outra, se anulam reciprocamente, se neutralizam, se desmaterializam. (...) O mesmo acontece no teatro, que é o “como se” é a metáfora corporificada – portanto, uma realidade ambivalente que consiste em duas realidades – a do ator e a da personagem do drama que mutuamente se negam. É preciso que o ator deixe durante um momento de ser o homem real que conhecemos e é preciso também que Hamlet não seja efetivamente o homem real que foi. É mister que nem um nem outro sejam reais e que incessantemente se estejam desrealizando, neutralizando para que só fique o irreal como tal, o imaginário, a pura fantasmagoria. (Ortega & Gasset; 1991, pg 38/39).

Na conferência a pouco destrinchada, Ortega expôs o Teatro como algo que possui uma essência, não importando a forma com a qual se apresente. Muito pelo contrário, reconhecendo sua diversidade formal e reafirmando a existência de elementos constitutivos essenciais. Ao des-ocultar o teatro, revela o que está na essência dessa arte. Em primeiro lugar, as dualidades: a física (palco e platéia), a humana (o ator e o público) e a funcional (ver e fazer para ser visto). Seguidas pela Metamorfose e pela Metáfora. Estas, concebidas por ele, como responsáveis pelo desaparecimento do real e a instauração da irrealidade[3].

[1] Ortega, na conferência que proferiu e deu origem a esta obra, faz esta citação referindo-se a uma atriz, filha da ilustre primeira atriz do Teatro de Dona Maria, local que abrigou a conferência e espaço cênico sempre usado como exemplar, por ser la italiana,, em suas considerações. (Ortega & Gasset; 1991, pg 34)
[2] O tradutor, para dar o sentido pleno de ação do ator, nos termos do original, recorreu a esta palavra pouco usada, mas existente em português, em lugar da palavra “apresentar”.
[3] Segundo este autor, a expressão mais usada na metáfora emprega o como e diz: a face é como uma rosa. O ser como não é o ser real, senão um como ser, um quase-ser: é a irrealidade como tal. (1991, pg 38)..